Uma carta do Inferno

 

A maior força do Mal consiste em nos fazer pensar que a nossa luta pelo bem é uma resposta desproporcional e injusta aos pequenos males que eles querem nos impor em troca do grande “bem” que as suas políticas estragadas prometem falsamente para um futuro melhor.

Brasilia, 24 de Julho de 2015 (ZENIT.orgPaulo Vasconcelos Jacobina 

Se o grande autor cristão C. S. Lewis estivesse vivo hoje, talvez pudesse acrescentar ao seu belo livro “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz” uma carta mais ou menos assim:

Meu caro diabinho aprendiz,

A banalidade do mal é um aspecto da nossa realidade que os seres humanos contemplam pouco, mas que nos é extremamente útil. Precisamos explorá-lo cada vez mais.

De fato, se fizéssemos uma leitura com olhos demoníacos do capítulo 3 do Livro do Gênesis, o célebre trecho da tentação de Adão e Eva pela serpente, nosso mestre diabólico maior, no Paraíso, surpreenderíamo-nos com a banalidade do gesto ali descrito: um animalzinho falante oferece uma fruta apetitosa ao casal, e o casal come. Descobrem que estão nus, vestem-se com folhas de figueira e escondem-se, envergonhados com a própria nudez, ao ouvirem os passos de Deus que se aproximava. E isto é tudo: um animalzinho, uma pequena mordida numa fruta apetitosa. E eis o mal instalado no mundo, eis o fim do paraíso, eis a humanidade inteira irremediavelmente comprometida (pelo menos até a redenção em Cristo) pela ferida hereditária do pecado original. Veja como a banalidade do mal é eficiente! E como, diante dela, a reação de Deus parece desproporcional e arrogante!

Como seria fácil até para um humano bem treinado em técnicas jurídicas de tribunal, se devidamente inspirado por um de nós, distorcer a reação aparentemente desproporcional de Deus à banalidade do gesto dos primeiros humanos, de modo a fazer com que pareça desproporcional e autoritária: por que excluir todo o gênero humano do Paraíso por causa de uma mordidinha numa fruta? Uma fruta que, diga-se de passagem, foi criada pelo próprio Deus, e por ele feita apetitosa aos olhos de sua criatura. Não é difícil a um argumentador treinado em retórica jurídica transformar Deus no grande culpado pelo que ocorreu nessa passagem bíblica; as criaturas, Adão e Eva, sem esquecer a serpente, não pediram para ser criadas. Não escolheram morar num paraíso em que uma das frutas lhe era proibida. Além disso, Deus não se comporta como um burguês egoísta, um capitalista possessivo, ao negar ao primeiro casal justo o fruto da árvore que “está no meio do jardim”? E o princípio da proporcionalidade, não estaria desatendido quando, por causa de uma frutinha, Deus condena a serpente a “caminhar sobre seu ventre e comer poeira todos os dias”, sem possibilidade de livramento condicional? Não seria machista, ao condenar somente Eva às dores do parto e a ser dominada pelo marido? Não seria explorador do proletariado ao condenar Adão a extrair seu sustento “com o suor do rosto”, expulsá-lo do Paraíso e retirar dele o acesso à Árvore da Vida, condenando-o, ademais, à crudelíssima “pena de morte”, que nossas sociedades já não admitem no atual estágio de civilização? Ademais, com um gesto militarista, põe à entrada do Paraíso seus “policiais militares”, os querubins com suas espadas em chamas fulgurantes.

Restar-nos-ia apenas convencer à humanidade contemporânea que a única postura adequada das criaturas hoje seria, então, a justa revolta contra um Deus arbitrário, arrogante, machista, patrimonialista e cruel, desproporcionado em sua reação e autoritário em seu agir. E assim, o nosso argumento infernal poderia prosseguir: incentivarmos o ser humano a progredir no sentido da sua própria “libertação” frente a um Deus assim: desconstruir a fé! Incentivemos as pessoas a repetir, todos os dias, os gestos mais banais para demonstrar sua independência, sua autonomia frente a Deus e à religião, para expulsar da sua vida, num gesto humano de resposta à altura, esse mesmo Deus que um dia os expulsou do Paraíso.

E com base nesse mesmo raciocínio, vamos conclamar todos os diabos a propor, hoje, como solução para todas as misérias humanas, a progressiva liberação das drogas, o aborto primeiro como exceção, depois como regra, a eutanásia, o divórcio, a pornografia, a promiscuidade, o sexo casual e o descompromisso afetivo, o consumismo desenfreado e a ostentação, a mutilação vaidosa do próprio corpo, a acumulação de riquezas e poder, tudo com a marca da banalidade que é muito própria do mal. Assim, digamos aos humanos: que mal há num divórcio, se as pessoas estão apenas buscando a própria felicidade ao romper uma família que já não lhes era mais agradável? E a miséria social se abate muito mais duramente contra uma família empobrecida, sem emprego, sem pai ou sem mãe, numa economia atravessada pela ambição desmedida! Quando Já não houver quem derrame lágrimas quando as famílias se desfazem assim, diremos a eles, estaremos numa sociedade evoluída, livre de Deus e seus dogmas insuportáveis. Que mal há, digamos a eles, quando alguém mata no útero um pequeno bebê de semanas? Tudo em nome da “libertação da mulher”! Quando já não houver lágrimas por ele, visto como um “pequeno amontoado de células” que parasita o corpo da mulher, que deve ser eliminado como um manifesto de liberdade feminina contra o velho castigo do Paraíso, seremos vitoriosos. Ah, quão doce para nós é ver um bebê arrancado de sua mãe verdadeira e biológica, sob os aplausos da grande imprensa mundial, em favor de quem “alugou seu útero”, aproveitando-se da sua mais absoluta miséria: incapaz de ter um filho como fruto de amor, natural ou adotado, alguém decidiu tê-lo como fruto de dinheiro. Arrancar filhos dos braços das mães em lugares paupérrimos para entregá-los a endinheirados de países prósperos já foi considerado pela maior parte da humanidade como um gesto abominável de escravização. Hoje, graças ao nosso trabalho, é vanguarda comportamental. Seu filho traz na mochila um pouco de droga, e você está escandalizado? Tolo moralista. Digamos a eles: os governos malvados e opressores usam a questão da droga para fazer a polícia reprimir os pequenos prazeres juvenis! Não são tantos grandes artistas, muitas vezes inspirados por nós abertamente, os grandes ícones da rebeldia drogada? Seu filho é um inconformista, um vanguardista. Por outro lado, se ele está viciado, diremos que já não tem jeito, abandone-o e pronto! Despreze o seu filho que cai, despreze seu familiar que cai, destrua seu lar e vá em busca de seu próprio prazer!

Eduquemos, com as nossas hordes infernais, as próximas gerações, para que todos os prazeres sejam permitidos, e as velhas repressões e preconceitos dos tolos crentes sejam superados. Usaremos os avanços que Deus (nosso adversário) permite e inspira nas ciências médicas e químicas para convencer aos humanos que os limites humanos serão curados pelas ciências, e que reconstruir a Árvore da Vida que o velho Deus guardou no seu Paraíso, sem precisar do próprio Deus, é só uma questão de tempo. Vamos convencer que é necessário dar acesso pleno aos recursos políticos, econômicos e sociais aos de nossos partidos, para que possamos construir a justiça na terra com meios estritamente humanos (se trabalharmos bem os políticos, isso parecerá possível a eles), pela rejeição de qualquer menção a Deus nos espaços públicos. E quem dentre os humanos levantar dúvidas contra o nosso plano, que será proposto como um plano “libertador” em favor de todos os humanos, será tachado de retrógrado, supersticioso, egoísta, antidemocrático e obscurantista.

Para que tudo isto? Ora, quando eles renunciarem a Deus completamente, já não haverá quem os proteja de nós. Serão nossos escravos eternos. Ora, meu pequeno aprendiz diabólico, será que você não leu a Bíblia? Não conhece a Tradição da Igreja? Não viu que aquele gesto de expulsão do Paraíso foi só o início de uma história de salvação absolutamente eficaz contra nós? Sim, vou te lembrar, apesar do asco que esta história causa em nós, demônios: a partir daquela queda, Deus enviou seu próprio Filho para que nós já não pudéssemos fazer de novo com os seres humanos o que um dia fizemos com Adão e Eva: prometer-lhes o que jamais poderíamos dar, em troca da renúncia ao amor de Deus. Prometemos o poder e a eternidade, mas o que temos para dar? Só escravidão e morte...

Quem nunca testemunhou essa banalidade do mal em suas próprias vidas? Não falo aqui daqueles, tantos de nós, que, muitas vezes movidos por escolhas desacertadas, praticaram estas coisas e merecem todo nosso apoio e compaixão para superá-las. Falo, isto sim, daqueles que estão lutando para transformar tantos males, estes e outros, em políticas públicas, com o argumento de que na verdade são apenas pequenos males que, se praticados, gerarão enormes bens. A maior força destes consiste em nos fazer pensar que a nossa luta pelo bem é apenas uma resposta desproporcional e injusta aos pequenos males que eles querem nos impor em troca do grande “bem” que as suas políticas estragadas prometem falsamente em nome de um suposto futuro melhor. Esta foi a estratégia da serpente no Paraíso. Esta ainda é o comentário que frequentemente escutamos quando nos opomos publicamente a alguma dessas políticas que São João Paulo II um dia chamou de “cultura da morte”.